Retorno do Blog e Onde Encontrar Novos Textos

Posted: sexta-feira, 7 de agosto de 2015 by Victor Carvalho in
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Bom dia, amigos! A boa notícia é que estamos tramando o nosso aguardado retorno! Durante esse recesso de 4 anos, recebemos várias mensagens de vocês, perguntando o motivo de termos parado. Muita gente pediu que voltássemos a escrever e muita coisa aconteceu desde nosso último texto. Queria, primeiro, agradecer a todos que nos apoiaram e pediram esse retorno durante tanto tempo. Estamos voltando não apenas por uma necessidade de escrever, mas também por causa do carinho que todos demonstraram durante esse tempo em que estivemos parados.

A internet mudou muito desde que paramos de escrever no blog. O Facebook se popularizou incrivelmente e hoje é o McDonalds da internet (ops...). Não só ele, mas as redes sociais hoje dominam o que nós vemos (ou não vemos por aí). Twitter, Instagram, Pinterest, Tumblr... São tantas as mudanças que nós também teremos que nos adaptar. Temos consciência que Blogs estão um pouco "ultrapassados". A moda hoje é ter um canal no Youtube e acariciar a preguiça dos outros com sons e imagens, como se ninguém mais quisesse ler. Bem, nós nunca facilitamos as coisas para vocês, né? Essa não será a primeira vez! Se texto é a contra-mão da internet, seguiremos de cabeça erguida nela. Gostamos de escrever, gostamos de discutir com vocês e continuaremos fazendo isso! Contudo, não voltaremos mais com a plataforma Blogger. Estamos preparando um novo visual e devemos retornar com o Wordpress.

Ah, vocês devem estar se perguntando o que é esse grande "M" no início do texto. Para os que não conhecem, esse é um site chamado Medium. Ele funciona como um misto entre Rede Social e Blog. Você cria um perfil pessoal e pode postar textos, comentar nos textos de outras pessoas ou recomendá-los para que mais gente possa ter acesso. É uma plataforma sensacional e, por isso, convidamos todos vocês a conhecerem. Para quem gosta de bons textos, o site está recheado deles. Tanto eu quanto João já criamos nosso perfil lá. Enquanto o Blog ainda não volta, escreverei novos textos lá, assim como algumas versões atualizadas dos antigos textos daqui. Para ter acesso ao nosso perfil, basta clicar nas imagens ou links no fim do post. Siga-nos, recomende nossos textos, postem no Facebook, no Twitter, na geladeira... Espalhem a palavra (hahah)! E aguardem. Em breve estaremos de volta.

E para quem não conhece ainda, esta é nossa página no Facebook (que também vai sofrer boa reformulação): Uma Cerveja com Hermes. Colocarei as novidades lá, por enquanto.

Já escrevi dois textos novos no Medium. Seguem os links para vocês darem uma conferida:


https://medium.com/@victorsdc

https://medium.com/@joaopereiralc

25 de Maio, dia dos Guerreiros da Toalha

Posted: quarta-feira, 25 de maio de 2011 by João. C in Mesas: ,
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Venho rapidamente apenas para desejar nossos parabéns nerdescamente etílizados a todos vocês que entendem da numerologia do numero sagrado: 42. E especialmente para aqueles que viveram os tempos duros em que ser “uncool” não era “cool”... era mesmo um cu e precisava ter muito amor próprio para seguir com essa vida estranha que a gente levava. 

Aproveito para desculpar-me pelo escasseamento das postagens, por que semestre de TCC é realmente punk pra fazer qualquer coisa.

Segue aí um presentinho do trio Goldfish, com muitas referências nerdescas pra galera caçar aí:


Beijos pra quem é de beijo e abraços pra quem é de abraço. E até a próxima

Nota: Quero ver acharem o Easter Egg sem olhar nos comentários do vídeo.

A Partida, Caronte e a beleza na morte

Posted: domingo, 24 de abril de 2011 by Victor Carvalho in Mesas: ,
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Okuribito (nome original do filme) não é uma palavra muito comum no vocabulário japonês. Ela é usada para representar aquele que envia as pessoas para longe. Algo como o barqueiro Caronte, que transportava as pessoas pelo rio de águas paradas em tempos remotos, quando a mitologia parecia mais factível. Os céticos acreditam em uma não continuação, uma morte niilista. Os cristãos acreditam em céu ou inferno para a alma daquele que se foi. Os espíritas, talvez influenciados pelos budistas (e esses, por sua vez, pelos hindus), acreditam em um ciclo, uma continuação. Eu prefiro acreditar que Caronte me espera. Não importa a forma com que você encara o que acontece depois. De certo modo, é só uma forma de você tentar aliviar o peso do fim. Ou seria de um novo começo? Fim, começo... é fato que o rio de águas paradas terá que um dia ser atravessado por todos nós. Deveríamos agradecer por isso, não temer. Olhando o outro lado da moeda, não estamos a viver mais e mais a cada dia, mas a morrer mais e mais a cada dia. E isso é bom. Sempre tive pena dos deuses, obrigados a seguir infinitamente, sem descanso. Ser mortal, em verdade, foi um presente, uma dádiva.

Em português, o filme se chama A Partida. Difícil é saber de que partida ele realmente fala. Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é um cellista recentemente desempregado. Daigo persegue um sonho que nunca foi seu. O enorme instrumento de notas graves é um peso em seus ombros. De certa forma ele já encontrou a única forma da morte que devemos temer: aquela que vem antes mesmo de fecharmos nossos olhos pela eternidade. Daigo, então, decide partir. Ele decide voltar à sua cidade natal, no interior, onde ele tem que conviver com outra partida: a de seu pai, que o abandonou quando criança. Lá ele se torna um nokanshi, um emprego aceito por poucos. Nokanshi é o nome dado àquele que, ritualisticamente, prepara o corpo dos mortos para o funeral. Um ritual tão belo e harmonioso que nos faz questionar se a morte é algo tão ruim quanto acreditamos ser. E é justamente ao olhar em seus olhos que Daigo reencontra sua vontade de viver. 

Eu entendo a imensa tristeza de perder alguém que amamos. Mas também entendo que essa nossa atitude é egoísta. Quando choramos a morte de alguém, não estamos chorando pela pessoa, mas por nós mesmos. Choramos por dar de cara com a maior certeza que temos: a certeza do fim, a certeza da partida. Mas, principalmente, choramos por sabermos que não mais teremos a acolhedora presença da pessoa amada. Choramos pela ausência de seus abraços, de seus beijos e de seu olhar. Não choramos por ela, mas por nós mesmos. É difícil, eu sei, mas é necessário entendermos que a partida é necessária. Assim como disse Montesquieu, não devemos chorar quando as pessoas morrem, mas quando elas nascem. Acredito que a vida é que deveria ser representada com um capuz preto e uma foice. “E, ao meditar, então, na paz da Morte,/ Vereis, talvez, como é suave a sorte/ Daqueles que deixaram de sofrer”, afirmara Pedro Homem de Mello, poeta português. Saramago, outro português, também nos mostrou o quão dolorosa seria uma vida eterna. Ambos já se encontraram com o objeto de sua poesia. Quando for a minha vez de entregar as moedas ao barqueiro, o farei com um sorriso no rosto. O difícil será manter esse mesmo sorriso ao fornecer tais moedas a alguém que amo. Será que se pode sorrir e chorar ao mesmo tempo? É... no fim, acho que serei sempre um egoísta. Montesquieu, Pedro, Saramago... entender, eu entendo. O difícil é deixar de sentir.

Elephant, Realengo e o dedo que mostra a lua

Posted: quarta-feira, 13 de abril de 2011 by Victor Carvalho in Mesas: ,
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Escrevo para não matar. A princípio não entendi a força dessa frase, ou melhor: a força desse pensamento. Li-o em um escrito da jornalista Eliane Brum. Afirmara ela que já havia entrevistado muitos escritores e que vários disseram isso quando perguntados sobre o motivo de escrever. O texto? Era sobre um velho (sim, velho... não nos escondamos em eufemismos, por favor) que tentava atravessar um corredor do shopping enquanto pessoas riam de sua situação.  Interessante como não somos capazes de perceber que fazemos vítimas todos os dias, que matamos pessoas todos os dias. Teoria do caos. O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tufão no Oriente. Por que ir tão longe? Uma simples ofensa pode causar um dos mais lamentáveis massacres da história brasileira. Ação e reação. Em sete de abril de 2011 um país aprendeu sobre a terceira lei de Newton fora das salas de aula. Ou deveria ter aprendido.

Em razão do massacre, todo mundo recomeçou a discutir a questão do desarmamento. Por que quanto mais nos apontam a lua, mais nós olhamos para o dedo? Dessa vez olhamos para o dedo que apertou o gatilho. Mas não percebemos que o verdadeiro dedo que atira é o nosso. O meu, o seu, o de todos nós. Você mata quando trata mal o porteiro do seu prédio. Você mata quando ignora a existência de um pedinte na rua (negue o dinheiro, mas nunca, nunca o ignore). Você mata quando ri do velhinho que tenta atravessar o corredor do shopping. Você mata quando xinga, ri, exclui, deprecia e apelida um colega de escola, faculdade ou trabalho. O garoto que dá um tapa na cara do coleguinha hoje é o que bate em um homossexual no metrô mais tarde. O garoto que chuta o colega gordo é o que queima o mendigo mais tarde. Infelizmente, o garoto que sofre também pode ser o garoto que faz sofrer. É o desejo do oprimido em virar opressor. É como o escravo que vira senhorio em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Columbine, Estados Unidos, 1999. Longe, não é? Tanto no espaço quanto no tempo. Nesse dia, 12 pessoas também morreram. Doze, assim como em Realengo, no Brasil, em 2011. Doze? Não, não foram doze que morreram naquele dia. Por que não contamos com a morte de Wellington? Talvez seja porque saibamos que, no fundo, nós já o havíamos matado, assim como já havíamos matado aqueles dois garotos que causaram o massacre em Columbine. Há 8 anos, em 2003, com o belíssimo filme Elefante (Elephant), Gus Van Sant tentou nos mostrar a lua. Mas ignoramos seu aviso, continuamos a olhar para o dedo.  Pensamos que aquilo era coisa de americano, maluco. E continuamos nosso massacre do dia-a-dia. Demorou para a borboleta causar um tufão, mas aconteceu.

Não entendo porque culpamos tanto as armas, porque colocamos essa culpa em um fator externo. Não entendo se somos cínicos, cegos ou covardes mesmo. Covardes porque não queremos carregar tantas mortes em nossos ombros. As mortes das crianças de Columbine, as mortes das crianças de Realengo, as mortes diárias que fazemos sem perceber. Um copo só pode encher até o limite em que transborda. Não adianta proibirmos a venda de armas. Não adianta também criarmos uma super política de segurança pública. Nada disso adianta se não mudarmos. Quando vamos perceber que nunca iremos parar um tufão por cortar as asas de uma borboleta? “E a vida já não é mais vida. E no caos ninguém é cidadão. As promessas foram esquecidas. Não há estado, não há mais nação. Perdido em números de guerra. Rezando por dias de paz”. É, meu caro Hebert Viana, não canso de dizer que temos muito ainda a aprender com os poetas, os músicos, os artistas. São eles que nos mostram a lua. Tão próxima e ao mesmo tempo tão longe. Agora eu entendo porque escrevo. Escrevo para não matar. Escrevo para canalizar a raiva que sinto das injustiças. Escrevo para não cometer uma injustiça. Escrevo para evitar que o copo transborde. Escrevo para impedir o tufão. Escrevo para tentar ver a lua. Escrevo para não morrer. Escrevo para não matar. E você, o que faz para não matar?

Ruim com Elas... inexistente sem elas.

Posted: domingo, 10 de abril de 2011 by Victor Carvalho in Mesas:
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Chico Buarque dizia ser um grande desconhecedor das mulheres. Eu já havia falado aqui dessa “coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável” quando falei de outro grande poeta: Vinícius de Moraes. Mas dessa vez falo delas sob outra ótica. A ótica de Chico. A ótica do desconhecimento, do não entender. Ah, mulheres. Contraditórias? Com certeza. Inconsistentes?  Sempre. Incoerentes? Também. Fascinantes? Em sua completude. Fascinantes porque contraditórias, porque inconsistentes. O ser humano só é coerente quando incoerente. E a mulher é seu perfeito exemplo. Conviver com tamanha complexidade requer a arte de conviver com o desconhecer, com o não entender e, acima de tudo, com o contemplar. Ruim com Elas? Pior sem elas. O site é um projeto que veio justamente para contemplar esse não saber, esse desconhecimento. A sua proposta, como a de Chico, é beber desse vinho. Suave, um pouco ácido e encorpado (sim, sempre encorpado), mas com um paladar oscilante. E nunca, nunca seco. A cada vez que você o bebe, o gosto é diferente, ainda que o vinho seja o mesmo.

Lord Byron, poeta britânico, já afirmava que é mais fácil morrer por uma mulher do que conviver com ela. Inclusive, o próprio Byron foi o primeiro a cunhar a expressão que dá nome ao projeto: “terrível é que não é possível viver com as mulheres, nem sem elas”. O Ruim com Elas é uma coleção de tirinhas diárias que, com muito humor, brinca com as situações comuns do dia-a-dia que a inconsistência feminina vem a criar. É simplesmente impossível não se identificar com as situações. Mas a maior característica de suas tirinhas é a simplicidade. Despretensioso até no traço, o Ruim com Elas está lá todo dia (menos nos finais de semana, porque aí ninguém é de ferro) para te mostrar... não... para te lembrar que o caminho para o coração de uma mulher é repleto de pedras. Lembrar, principalmente, que o divertido, e Drummond concordaria comigo, é justamente passar por essas pedras, coletá-las e construir um castelo... ou uma tirinha.

A resposta já nasce morta, a dúvida se imortaliza na arte. E talvez por isso elas, as mulheres, tenham inspirado os homens desde a Antiguidade. Musas. Mulheres serão sempre musas. E aqui eu volto à Chico: “Que será que me dá? Que me queima por dentro, será que será? Que me perturba o sono, será que me dá? Que todos os tremores me vem agitar. Que todos os ardores me vem atiçar. Que todos os suores me vem encharcar”. Não sei, Chico. Que bom que não sei. É tão melhor conviver com esse não saber. Esse não saber que vem no feminino. É o que me fascina e sempre me fascinará. É o que não tem resposta, nem nunca terá. É o que me inspira e sempre me inspirará. Não tem vergonha, governo, juízo, limite, descanso, cansaço, medida, remédio ou receita. Que bom que não tem. Que bom que eu não sei. “Só sei que nada sei” é o que vai estar sempre em meu olhar, em meu toque, em meu paladar. Ruim com Elas... inexistente sem elas. 


E como tudo fica muito melhor com zumbis...

 
Meus amigos do Ruim com Elas, agradeço a homenagem. Aceitem a minha. Para vocês e para as musas que vivem nos inspirando. Visitem http://www.ruimcomelas.com.br/.


Rio, voando como flamingos no Pão de Açucar

Posted: sábado, 9 de abril de 2011 by Victor Carvalho in Mesas: ,
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Confesso que quando vi o primeiro trailer de Rio, fiquei um pouco apreensivo. Em poucos minutos eu vi bundas, praia e pessoas com pouca roupa... Visões estrangeiras do Brasil nunca deram muito certo (alguém ainda lembra de Turistas ou do famoso episódio dos Simpsons?). Mas não sei até que ponto a culpa não é nossa. Talvez seja essa a imagem que passamos do nosso país, do nosso povo. Como queremos ser respeitados se enaltecemos esse “jeitinho brasileiro” como se fosse algo bom? Como queremos não ser chamados de macacos se agimos como tais? É, meus amigos, talvez o macaco precise olhar um pouco para o rabo. Mas divagações à parte, fiquei tranqüilo quando soube que o diretor e escritor era Carlos Saldanha. O filme, de certa forma, é um pouco autobiográfico. Saldanha saiu da sua cidade natal, o Rio de Janeiro, em 1992 para tentar alçar seu sonho nos Estados Unidos. No filme, Blu é uma arara azul que, assim como Saldanha, sai do Rio de Janeiro para o país do hamburguer (e não é que nós também criamos estereótipos de fora?).

Contudo, Blu cresceu preso, domesticado. Mas em seu mundinho limitado, ele era feliz. Feliz como o escravo que não sabe que é escravo. Blu vivia em uma gaiola criada por si mesmo. Ele era seu único limite e empecilho. A nossa arara azul é um pássaro que não sabe voar. E é nessa metáfora do voar que o filme sustenta toda a sua jornada de auto-conhecimento. Blu tenta utilizar sua a inteligência, tão fria quanto Minnesota, a cidade em que vive, para alçar os céus. Mas logo ele descobre não ser o bastante. Para voar, Blu precisa encontrar seu coração, tão quente quanto o Rio. Ele precisa encontrar o ritmo do seu coração (e, por óbvio, é bastante insinuado que o ritmo é o samba). Tentar voar com a cabeça é inútil. Apenas voam aqueles que o fazem com o coração. E essa é a superioridade da arte sobre a ciência. Você lembra melhor da fórmula de física que aprendeu no segundo grau ou do que sentiu quando ouviu uma bela música de Chico Buarque?

A ciência é fria e exata. Cheia de fórmulas, pode ser reproduzida por qualquer um. A arte não, a arte é única e não pode nunca ser reproduzida. A cópia de um quadro de Salvador Dali é só a cópia de um quadro de Salvador Dali. A idéia de arte é justamente não ter regras. Ninguém consegue voar utilizando fórmulas, regras e conceitos. Não importa o que você faça. Os melhores textos foram escritos pelo coração, sem formas. As melhores pinturas foram pintadas pelo coração. E Rio foi um filme feito com o coração. Talvez Saldanha tenha perdido a mão um pouco, disso não posso negar. Afinal, colocar flamingos voadores no Brasil é um tanto quanto complicado, não é, Carlos?

Entretanto, Nota-se uma adoração nostálgica de Saldanha durante todo o filme. Vários dos elementos da cultura popular brasileira estão presentes. Sim, cultura popular. Ou você vai negar que boa parte do país espera o Carnaval e para de trabalhar em jogo da seleção canarinha? O verde e amarelo é algo constante. Flamingos voadores à parte, há camisas da seleção, blocos de carnaval, desfiles de escolas de samba, bolas de futebol e, claro, jogo da amarelinha. Estereótipos? Claro. Visão coca-cola do Brasil? Não tiro sua razão, amigo. Mas Rio, na verdade, é um tributo de Saldanha à sua terra natal, seu país, sua cidade. Um tributo com flamingos voadores, mas ainda um tributo. A trilha sonora, que conta com a produção executiva de Sérgio Mendes é simplesmente sensacional. Ele mistura elementos do samba carioca com a música americana e até mesmo o batuque de Carlinhos Brown. Rio é Saldanha gritando que tem orgulho de ser brasileiro, apesar dos flamingos voadores.

O filme peca por ser estereotipado demais? Não diria que é um pecado. Afinal, estamos falando de animação. O objetivo não é questionar a sociedade (embora, nesse caso, como eu falei acima, você o acaba fazendo). O objetivo é o riso, a felicidade, a imaginação. Divertir-se. Afinal, cinema é para isso, não é? O mundo seria tão mais triste se não tivéssemos nossa imaginação para deixá-lo melhor. Parafraseando Bukowski: a arte é o que deixa a vida suportável. Haverá quem diga que Rio é um filme na medida para turista ver. Eu não discordo. De fato, é. Mas Rio também é um tributo à cidade maravilhosa. E mais uma vez repito: um tributo com flamingos voadores, mas um tributo... Fico feliz que, como seu personagem principal, Carlos Saldanha tenha alçado vôo e, junto com ele, seu sonho. De certa forma é uma mensagem positiva para todos que ainda planejam voar. Mas que a mensagem fique: para voar, meus amigos, você tem que sentir. E já dizia Fernando Pessoa: “sentir? Sinta quem lê”. Aqui eu digo: sentir? Sinta quem vê e quem faz.

VIP's. Quem "Será" você?

Posted: sexta-feira, 25 de março de 2011 by Victor Carvalho in Mesas: , ,
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Wagner Moura tem se consagrado como um dos maiores atores nacionais, principalmente após a sua migração para o Cinema em 2007 (à exceção da minissérie Som & Fúria, em 2009). Embora tenha participado de bons filmes anteriormente, foi no ano de 2007, com Ó, Paí, ó e Tropa de Elite que o ator começou a ganhar o prestígio do grande público. Desde então ele vem crescendo em seus papéis. É notória a diferença entre o Capitão Nascimento e o Secretário Nascimento. O personagem cresceu, o ator cresceu e o filme também. Costumo falar que o primeiro Tropa de Elite é como um adolescente de 16 anos: eufórico, promissor, mas ainda ingênuo e um pouco infantil. Já no segundo filme, a história atinge a sua maturidade, mostrando seu verdadeiro potencial, e, conseqüentemente, o do seu ator principal. E um ano depois, em VIP’s, o ator baiano, formado em jornalismo pela UFBa, prova que ele consegue, e nesse filme de forma metalingüística, o objetivo maior do atuar: ser um camaleão.

Nosce te ipsum. Conhece-te a ti mesmo. A advertência fincada em pedra na entrada para o Oráculo de Delfos, na Antiga Grécia. “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Quem sou eu? Essa deve ter sido a pergunta mais feita ao Oráculo e talvez em toda a história da humanidade, desde Sócrates. É o início do existencialismo. E VIP’s é um filme existencialista até a última ponta. Ou o último rolo de filme. A história começa mostrando a adolescência de Marcelo Nascimento da Rocha (interpretado por uma divertida versão emo de Wagner Moura). Já nas primeiras cenas, quando Marcelo imita um colega em sala, percebemos uma ausência de identidade do personagem. Marcelo, Denis, Carrera, Juliano de Souza, Henrique Constantino... ele é muitos e ao mesmo tempo ele não é ninguém.

O que faz você ser você? Seu nome? Sua imagem? Sua reputação? Seu corpo? Sua essência? “A existência precede e governa a essência”, alertava Sartre na frase que se tornou a pedra base do existencialismo. É a diferença ontico-ontológica de Heidegger. “Onti-quem, rapaz”? Calma, é mais simples do que parece. É a diferença entre o “ente” e o “ser”. O “ente” seria a sua representação material, enquanto o “ser” é a sua concepção. Por exemplo, Pamela Anderson não deixou de ser Pamela Anderson porque ela colocou silicone. O “ente” pode ter mudado, mas o “ser” é o mesmo. Contudo, Pamela é diferente de Marcelo. A mudança do seu “ser” é sempre acompanhada de uma radical mudança do seu “ente”. Quando ele se torna piloto do tráfico, perguntam o nome dele, Marcelo vê um Porsche e responde: Carrera. Algum tempo depois ele pinta seu cabelo de loiro e passa a usar um boné com o nome Carrera estampado. A partir desse momento, ele passou a ser Carrera, não mais Marcelo.

Tempos mais tarde, quando ele corta o cabelo, ele se torna Henrique Constantino, filho do dono da Gol.  "Quem é você?" Em todo o momento o personagem se debate com essa pergunta em sua jornada. Uma jornada tipicamente existencialista. Quando adolescente, ele foge de casa, ele foge do meio que o identifica, para se descobrir. Ele sai de si para se encontrar. Ainda quando adolescente, Marcelo tem uma certa reverência pela tradição oriental, que é a verdadeira fonte dos primeiros pensadores do existencialismo moderno. Um homem não pode se banhar duas vezes no mesmo rio. O homem já não é mais o mesmo homem e o rio já não é mais o mesmo rio. Esse é um velho ensinamento budista. O filme é cheio de simbolismos, como a cena em que Carrera, sempre muito narcisista, deixa de existir. É impossível não recordar a figura mitológica de Narciso quando seu boné cai no lago. Enquanto Henrique Constantino, ele vai para o Carnaval de Recife, um Carnaval conhecido por suas fantasias, suas máscaras. É o momento do ano no qual você pode ser quem quiser.

Há um certo simbolismo também no sonho do menino Marcelo: ser piloto, voar.  “Torna-te quem tu és!”, gritara Nietzsche. Talvez, nesse ponto do filme você sinta o peso do eco da voz de sua mãe: “você precisa ser alguém na vida, menino”. Mas o que vai me tornar alguém? O que eu preciso fazer para poder voar? “Será só imaginação?/ Será que nada vai acontecer?/ Será que é tudo isso em vão?/ Será que vamos conseguir vencer?”, canta Carrera, interpretando a belíssima canção do eterno Renato Russo. Percebemos que, na verdade, ele não canta. Ele te pergunta: será? Você se pergunta: será? O filme não responde. Mas será que existe resposta? Será? Agora já foi.

Vinícius, como encontrar a beleza da mulher?

Posted: terça-feira, 8 de março de 2011 by Victor Carvalho in Mesas:
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Vinícius é um excelente documentário sobre este que foi um dos maiores poetas do Brasil. Falo de Vinícius sem querer falar de Vinícius. Aqui uso Vinícius não para falar dele, mas para falar do objeto de boa parte de sua obra: as mulheres. Vinícius de Moraes, o homem que mais entendia de mulher nesse mundo. Ele as entendia porque ele as contemplava. Há quem diga que ele era machista. Esses não entendem a verdadeira alma do poeta. Vinícius nunca foi machista, muito pelo contrário. Mas Vinícius, talvez por tanto amar as mulheres, ele, acima de amar uma mulher, amou a mulher. E aqui eu peço desculpas. Desculpas pois vou falar de mulher em prosa. Sim, uma heresia, concordo. Não há que se falar em mulher se não em verso. Dizendo muito com poucas palavras. Mas acima do verso e da prosa, mulher é poesia. Então, além das desculpas, te peço mais uma coisa: encontre a poesia em minhas palavras. E talvez, meio a essa poesia, você encontre a beleza da mulher.

Mulheres, vocês nunca conseguirão se entender. É impossível entender uma mulher de dentro. Para isso é preciso, como Vinícius, estar fora. Mas apenas estar fora não basta. Deve-se estar fora e contemplá-las, amá-las, tê-las e não tê-las. Sofrer por estar sem ela, sofrer por estar com ela. E nesse sofrimento descobrir a felicidade, a beleza. Sim, a beleza. A beleza da mulher-violão, da mulher-violoncelo, da mulher-bandolim, da mulher de aquário, de peixes e de áries. “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. Não me entendam errado quando falo de beleza. Quando disso falo, não falo de padrões. Não falo de loiras, morenas, ruivas (ah, as loiras, morenas e ruivas...). Não falo de seios fartos ou bundas perfeitas (ah, os seios fartos e bundas perfeitas...). A beleza feminina não está apenas aí. A beleza feminina também está no olhar (ah, o olhar...). “Os olhos, que sejam de preferencia grandes e de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão que é preciso ultrapassar”. Falo também do sorriso (ah, o sorriso...). Sou bobo da corte, príncipe encantado ou cavaleiro negro para ver esse sorriso. Meu tempo não é contado em minutos, horas ou dias, mas na quantidade de vezes em que vejo o raiar desse sorriso. Não posso deixar de concordar com Vinícius. Mulher perfeita é a mulher-violão.

Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.

Uma Mulher Chamada Guitarra

Não importa se apenas uma mulher ou várias, toque-a com paixão. Tocar o corpo de uma mulher sem paixão, seja por uma mulher ou pela mulher, é o mais vil dos crimes. A mulher precisa de paixão para ser tocada, exatamente como uma guitarra ou um violão. De aço, de nylon, elétrico, acústico, semi-acústico, cada uma tem seu timbre. Apenas aquele que verdadeiramente toca uma mulher consegue dela tirar seu timbre único, consegue nela encontrar sua beleza. Toque-a com paixão, pois paixão é o que separa os grandes guitarristas dos músicos de boteco. Toque seu corpo e tocando seu corpo descubra sua alma. Cada detalhe, cada ponto, cada nota. E das notas, os acordes. E dos acordes, a canção. E da canção, na canção, a poesia. Triste é o homem que nunca tirou a poesia de uma mulher. Triste é a mulher que nunca encontrou seu poeta. “Dentro dos meus braços/ Os abraços hão de ser milhões de abraços/ Apertado assim, colado assim, calado assim”.

Que a mulher seja em princípio alta ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos, ao abri-los ela não estará mais presente com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá. E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida. Oh, sobretudo que ela não perca nunca, não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade de pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume; e destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina do efêmero; e em sua incalculável imperfeição constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.

Receita de Mulher

I Spit on Your Grave ou aprendendo a cuspir em tumbas

Posted: quinta-feira, 3 de março de 2011 by Victor Carvalho in Mesas: , ,
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I Spit On Your Grave (Doce Vingança, no por demais açucarado título nacional) é um filme controverso, ou você adora ou você odeia. Sem meio termo.  Mas uma coisa é definitiva: você tem que ter estômago para conseguir assistir. Não pelas cenas de gore. Eu já me acostumei com isso há muito tempo. Efeitos de uma adolescência regada a filmes trash, como o grande clássico Braindead (Fome Animal), a trilogia Evil Dead (ah, saudoso Sam Raimi) e a série Hellraiser, que não é propriamente trash. Por sinal, pausa para falar de Hellraiser. É uma das minhas séries de terror favoritas. Aquele maldito cubo mágico e os Cenobites ainda povoam alguns dos meus mais escuros pesadelos. Provavelmente minha fobia de agulhas vem daí. “We have such sights to show you” deve ser uma das frases mais sádicas de todos os tempos. Mas vou parar por aqui. Hellraiser merece um post próprio. Voltando ao I Spit on Your Grave (algo como “eu cuspo na sua tumba”), faça um teste consigo mesmo antes de assistir. Se você foi uma daquelas pessoas que passou mal ou achou forte demais a cena de amputação em 127 Horas, nem chegue perto dele.

Esse filme da mulher de calcinha com a faca na mão é um remake do cult A Vingança de Jennifer (Day of the Woman), de 1978. A linha que ambos os filmes seguem é o gênero exploitation. Exploitation é um termo referido para filmes que tendem a abusar de determinada característica chamativa de público, seja sexo, violência,  cultura afro ou latina. O excepcional Machete é um exemplo. Esse gênero era bem comum nos anos 70 e hoje é o pai do bastardo torture porn. O que é torture porn? Simples, são filmes que usam e abusam de pessoas torturadas para o bel prazer do público. Seus maiores baluartes são a franquia Jogos Mortais (Saw) e O Albergue (Hostel). O filme é dividido em duas partes: crime e castigo. A primeira parte dele acompanha a escritora Jennifer (Sarah Butler, em uma atuação um pouco exagerada, mas aceitável). Ela, muito corajosa, aluga uma casa no meio do mato de uma cidade do interior do Estados Unidos.

O lugar é perfeito para crimes. De um lado você tem árvores e do outro... mais árvores. É o tipo de local em que serial killers devem ter plano fidelidade e cartão de membro. E daí segue a parte mais tensa de toda a história. Desde o começo você sabe que algo de ruim vai acontecer, só não sabe quando. Sons estranhos e câmeras em um estilo voyeur só ajudam a construir a tensão para o momento em que um grupo de jovens locais torturam e estupram seguidamente a indefesa garota. Nesse ponto o filme toma contornos sádicos na tentativa de criar ódio e raiva no público. Sem roupas e quase sem consciência depois de tantas agressões, a garota consegue fugir. E esse é o ponto mais surreal do roteiro, ela desaparece por alguns meses e “renasce” como uma mistura de Jason Voorhees e Jigsaw. Daí segue a segunda parte do filme: a vingança. Com uma guinada de estilo, somos apresentados a um slasher em que um a um vai morrer. Contudo, Jennifer não se contenta só em matar, ela tem que saborear a dor de cada uma de suas vítimas, assim como fizeram com ela. É o velho “olho por olho, dente por dente”, o apelo ao desejo de justiça retributiva presente no ser humano.

Como terror e suspense ele é muito competente, mas o seu apelo ao sadismo do espectador é o mais assustador. Como um filme de vingança, ele fica atrás de todos os grandes clássicos do gênero, como a trilogia de Chan-wook Park. I Spit on Your Grave, talvez, seja sobre a perda da humanidade, mas apenas talvez. O que há de mais humano do que fazer o mundo ao seu redor sofrer? A história da humanidade é escrita em dor, sangue e lágrimas. O ser humano é um câncer para o seu próprio mundo, seu próprio meio ambiente. Desde a expulsão de Adão e Eva do Edén que o homem foi condenado à dor e ao sofrimento. Desde o assassinato de Abel por Caim e a queda de Lúcifer que o homem aprendeu a causar dor e sofrimento. Sempre tenho a tendência de questionar quando alguém fala que matar ou ferir é desumano. Sempre achei risível, quase uma piada, a idéia de Direitos Humanos. Não, não sou pessimista, muito menos niilista. Um cínico? Talvez. Mas homens como Gandhi são exceção, o que me leva a crer que ser humano e ser bom são coisas completamente antagônicas. Voltaire afirmava que a História é uma série de crimes e desgraças e seu conterrâneo Paul Valéry concordava dizendo que ela nunca ensinou os homens a viver em paz, muito pelo contrário. Sempre fui fã de Samurai X. Quando Shishio morre, ele grita em alerta: “O Demônio é a verdadeira face das pessoas, o Inferno é a verdadeira face deste Mundo!”. Talvez I Spit on Your Grave seja um filme sobre o encontro da verdadeira face da humanidade. Talvez seja essa nossa sina: cuspir em tumbas. Talvez. Apenas talvez.

Porque homens também amam – Sobre amores e traumas e como eles nos constroem

Posted: terça-feira, 1 de março de 2011 by João. C in Mesas: , ,
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Pois não só de porrada, violência, terror, horror e outras coisas repulsivas nós vivemos. O universo do homem nerd também é povoado de amores, expectativas, esperanças, desejos e outros floreios.

É fato cientificamente testado e comprovado que o nerd, até algo próximo ao final da adolescência será nutrido quase que exclusivamente de amores platônicos. Paixões por mulheres impossíveis, e nessa etapa da vida dele todas são impossíveis; Paixões não retribuídas, de mão única, e provavelmente inglesa pra empenar tudo. O único relacionamento com seres do sexo feminino que o nerd consegue construir nessa fase é o com sua melhor, e provavelmente única, amiga.

O universo ao lado dela, é algo maravilhoso, cheio de planos, desejos, expectativas. O nerd sonha que essa será sua primeira, única, e ultima mulher de sua vida – depois , é lógico da própria mãe. A sacralidade da primeira paixão do garoto nerd é tamanha que ele mal consegue imaginá-la de roupas íntimas, tamanho o medo em profaná-la. Mal se arrisca a quebrar uma nessa intenção (mentira deslavada, descarada, e descabida).


 O garoto se ilude, acha que ela também o ama, mas que ambos apenas não sabem como contar um ao outro. Também não tem iniciativa pra arriscar nada, afinal, teme que possa fazer alguma besteira e perder todo o caminho que já trilhou na conquista da garota. Prefere continuar devagar. Não quer perder sua melhor amiga.

Como este é seu único contato real com mulheres, este também é seu primeiro contato real com o amor. E com as decepções amorosas. É uma experiência, em geral, mal-sucedida, pois também é fato cientificamente comprovado que, para as mulheres, 99% dos melhores amigos são assexuados (então se você, meu caro amigo e leitor nerd, namora sua melhor amiga, saiba que é uma exceção).  Este é o grande momento na construção de sua personalidade, pois o resultado desses eventos definirá como a vida do homem será conduzida dali por diante. 


O evento é tão monumental que, para alguns, é digno de ser colocado num pedestal e preservado para a eternidade, para gerações futuras que habitaram nosso planeta.  É o caso de Craig Thompson. Craig precisou colocar pra fora aquilo que ele passou quando novo, e compartilhá-lo com a humanidade. Um monumento a ser contemplado por todos. Mas o que ele fez?


Craig Thompson teve uma infância complicada. Cresceu numa cidadezinha rural no meio do nada, em Wisconsin, nos EUA. Foi educado numa filha fundamentalista cristã, de opiniões bastante extremistas. Além de sofrer as pressões naturais da vida por ter uma criação dura, num lugar duro, Craig era nerd. Nerd tal qual eu, ou você, caro leitor. E sofreu repressões por sua natureza. E durante esse período extremamente conturbado, Craig conheceu a mulher que o tiraria dos eixos. A melhor amiga que, contrariando a ciência, daria o amor necessário para que Craig superasse os traumas. E a partir desta historia surgiu “Retalhos”.

Apresentações para os que não o conhecem. Craig Thompson é um dos mais falados autores de quadrinhos do momento. Ganhador de 4 prêmios Harvey, 2  prêmios Eisner e 2 prêmios Ignatz, seu mais memorável trabalho encontra-se no álbum “Retalhos”.


A obra é autobiográfica, e retrata eventos de dois momentos da vida do autor. O primeiro é a infância, onde a relação do autor com os pais, com o irmão, e aspectos importantes de sua criação são discutidos. Esse é um período extremamente marcado pelo contraste entre as alegrias da infância e a repressão feita pelos pais, como na cômica briga de mijo entre Craig e seu irmão mais novo, o Phil. Me lembrou muito lá em casa. Irmãos correndo, brincando e brigando por besteiras. Sempre acontece algo assim, numa saudável relação entre irmãos. Lutas de espadas entre Guardiões do Universo que se transformam em quebra-paus familiares, campeonatos de cuspe a distância cujo mais longe que os cuspes alcançam é a cara um do outro, acampamentos formados debaixo de lençóis e gravetos. Ê tempo bom! 

Sorte minha não ter sido o Craig. Acho que já disse isso, mas ele teve uma infância difícil. Seus pais reprimiam muitas de suas manifestações de traços de personalidade que fugissem do padrão. Desenhar era pecado. Desenhar monstros e historinhas com professores (nerd exemplar) era caminho certo pro inferno. Mulheres, não antes dos 18, e ainda assim, com supervisão dos pais. Craig estudou num colégio cristão ultraconservador e a situação lá não era muito diferente. O colégio via qualquer desenhista como um artista revolucionário de vanguarda, certamente drogado e homossexual, provavelmente comunista. A eternidade queimando pela absolvição dos seus pegados.

O segundo momento se dá no meio da adolescência, quando, durante um verão numa colônia de férias, Craig conhece Raina.



Raina é aquela mulher. A mulher que mudará pra sempre o caminho de Craig. A melhor amiga do garoto Nerd, que ensinará a ele que a vida pode ser melhor, pode ser diferente e pode ser mais feliz. E é justamente nesse período que o álbum enfoca. Nas transformações que nós sofremos ao longo do caminho que percorremos. Como nossas relações familiares se alteram ao longo do tempo, das mudanças das percepções sobre a vida, o amor, a espiritualidade e outros temas, quando nós descobrimos o amor.
  

Não quero fazer spoiler. Deixo nas mãos de vocês a responsabilidade de ler essa preciosidade e conhecerem a belíssima historia de Craig. E de Raina, e de Phil, e de todos os outros personagens cativantes que são apresentados ao longo do álbum.
 
A arte de Retalhos também não decepciona. Apesar dos desenhos simples e ser totalmente em preto e branco, a arte do álbum é marcada pela personalidade do traço de Craig, bem vivo e solto. Eventualmente um pouco sujo, mas de forma extremamente positiva.

Espero que gostem.


Forte abraço, sucesso a todos!

O Ritual e a necessidade de antíteses

Posted: quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 by Victor Carvalho in Mesas: , ,
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O Ritual (The Rite) é um filme quase barroco, cravado em antíteses e metáforas, mas sem os exageros clássicos desse estilo artístico. É interessante falar de clássico quando se fala de Barroco. O estilo é marcado por uma antítese em si mesmo: vontade de trazer o estilo pagão clássico do Renascimento ao mesmo tempo em que a forte cultura cristã tenta afastá-lo. E a maior parte do filme ocorre justamente no berço de todos esses movimentos artísticos: a Itália. A premissa de O Ritual não é muito inovadora. Michael Kovak (Colin O'Donoghue) é um garoto criado no fim do século XX e início do século XXI. Um mundo pós-moderno, líquido, fluído, incerto. Muito diferente do mundo de certezas em que seu pai viveu. Um mundo em que tudo parecia previsível, um mundo em que era mais fácil acreditar em algo que não se pode provar. Entretanto, como o próprio Michael diz: em sua família só existem dois caminhos: virar agente funerário ou padre. E nesse ponto começam as antíteses do filme. Ser aquele que prepara o corpo humano após a morte ou aquele que prepara a mente humana para a vida?

Como uma tentativa de fugir de casa, Michael resolve fazer o seminário para ser padre. Contudo, ele tinha o mesmo objetivo de Bentinho em Dom Casmurro: não passar no teste e assim poder seguir sua vida. Mas como o próprio mundo em que vive, seu futuro era coberto de incertezas e ele é enviado para a Itália com o objetivo de fazer o famoso (e real) curso de exorcismo do Vaticano. O Ritual é um filme de busca da fé. Nessa busca, nós temos o velho embate. A velha, cansativa e clichê antítese entre ciência e religião. E no centro disso tudo, a busca pela verdade. A busca pelo certo em um mundo dominado pelo Princípio de Heisenberg. A explicação psicológica do exorcismo contra sua explicação religiosa. Qual dessas representa a verdade? No meio desse turbilhão, Michael conhece o Padre Lucas (Anthony Hopkins, pela primeira vez em muito tempo me fazendo esquecer que ele é Hannibal), um dos mais famosos e não ortodoxos exorcistas italianos, e Angeline (Alice Braga), uma jornalista em busca da... verdade. Mas a questão é: existe verdade? Ou melhor, ainda existe verdade? Ciência, religião, psicologia, mitologia. Não é tudo isso apenas uma interpretação da realidade? A "verdade" é superestimada. E mais uma vez o filme se enrola em antíteses: é em busca da verdade que você pode encontrar a dúvida, a fé. A fé, que nada mais é que a certeza na dúvida. Não apenas a fé em um deus, mas a fé em si mesmo.

O filme também é marcado pela eterna luta entre o bem e mal. Mas ao mesmo tempo em que eles lutam, tentam se destruir, eles coexistem. Não há bem sem o mal. Não há vida sem a morte. Não há prazer sem dor. Não existe a certeza sem a dúvida. Exatamente como Brás Crubas, na belíssima obra de Machado de Assis: “Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar”. O Yng precisa do Yang. O Ritual mostra tudo isso, mas sem recorrer aos clichês do gênero: cabeças giratórias, camisolas brancas e sopas de ervilha, como diria o próprio Padre Lucas. Um dos méritos do filme é não se esconder em demonstrações gráficas para assustar. O demônio é uma própria metáfora dentro do filme, aparecendo somente enquanto metáfora, no terreno mais fértil para elas florescerem: os sonhos.

Nota

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Cervejas mais bebidas de todos os tempos!