De Shakespeare à HBO: a história do fim da República Romana em Julius Caesar e no seriado Roma.
Posted: quarta-feira, 21 de julho de 2010 by Marcus Seixas in Mesas: Livros, SériesTer um conhecimento prévio desta peça em particular foi importante para entendê-la; achei o início da peça um pouco “solto” no contexto geral do tema. Embora Shakespeare não seja, nem de longe, um autor intransponível, sua leitura não é fácil como um livro da Agatha Christie – também não é como o falecido Saramago e seu estilo 2a série de escrever – e logo a leitura vai revelando as informações, os personagens encontram-se nas conversas principais e o enredo se desenvolve propriamente. A linguagem rebuscada (minha edição mantém o inglês utilizado na época) e a estrutura em versos, com a qual não estava acostumado, foram empecilhos iniciais, mas nada que não pudesse ser superado. Minha maior surpresa foi o estilo envolvente e a originalidade com que ele compôs a personalidade dos personagens: a inquietude da alma de Brutus ficou evidente nos diálogos travados, sendo perceptível sua falsa segurança quando decide de uma vez por todas matar César.
Let us be sacrificers, but not butchers, Caius. We all stand up against the spirit of Caesar; And in the spirit of men there is no blood: O, that we then could come by Caesar's spirit, And not dismember Caesar! But, alas, Caesar must bleed for it! And, gentle friends, Let's kill him boldly, but not wrathfully; Let's carve him as a dish fit for the gods, Not hew him as a carcass fit for hounds.
O Ato III é o clímax da história, ocasião em que acontecem duas das cenas mais famosas da dramaturgia mundial; a primeira delas é o assassinato de César nos “idos de Março”, com as facadas de Brutus e Cassius e os demais conspiradores, culminando com a célebre pergunta do moribundo César, “Et tu, Brute?”. A segunda é o discurso de Marco Antônio após o funeral público de César. Brutus havia discursado primeiro, tentando justificar o assassínio. Contou a história de um César tirano e que queria dar um golpe na República. A oratória de Marco Antônio, no entanto, foi insuperável, contrapondo um tom emocional ao discurso frio e racional de Brutus. Começando com o chamamento “Friends, Roman, countrymen, lend me your ears”, ele lembrou a todos os feitos de um César conquistador, humilde, herói nacional; comoveu a platéia diante do corpo de César, e fez com que a multidão obrigasse os conspiradores a sair de Roma.
A partir de certo momento a história adquire um tom descritivo (até aproximar-se do final, quando a tragédia fica evidente) e, por vezes, quase monótono – ao menos eu tenho um interesse genuíno em história de Roma e o conflito do fim da República, mas me pergunto se um leitor sem este interesse particular conseguiria se manter interessado durante toda a trama. Para quem não tem muita familiaridade com este momento histórico, a leitura pode ficar um pouco complicada, em especial dada a quantidade de personagens. Uma boa dica é assistir ao seriado Roma, lançado há alguns anos pela BBC em parceria com a HBO, em duas temporadas. Através de dois personagens fictícios, Lucius Vorenus e Titus Pullo, o seriado retrata os mesmos momentos históricos que Julius Caesar, indo ainda além e contando a história do segundo triunvirato e o fim da República, quando se deu a batalha entre as tropas de Otávio e de Marco Antônio, que foi vencido no Egito (vindo a se suicidar), fazendo com que o primeiro se sagrasse Augusto e se tornasse o primeiro Imperador de Roma.
A série também é bem completa: tem aventura, amor (inclusive cenas bem explícitas de sexo) e um pouco de suspense (bom, a bem da verdade talvez nem tanto suspense se você conhece a história). As tentativas de demonstrar como se portava a sociedade romana foram em geral bem-sucedidas, com a exceção de algumas iniciativas esparsas totalmente desnecessárias, como a do incesto entre Otávio e sua irmã, Otaviana.
Em minha opinião a leitura de Julius Caesar é indispensável para qualquer pessoa que goste de História Antiga e tenha um razoável domínio do inglês, e é uma boa opção para começar a ler Shakespeare. O seriado Roma também é muito legal, e recomendo vivamente que se faça um “combo”, como eu fiz (confesso que quando assisti ao seriado minha impressão sobre Marco Aurélio mudou bastante). Um último alerta: tanto a peça quanto o seriado alteram em algum nível os fatos da história real, embora em geral as duas histórias sejam satisfatórias neste sentido. Para os curiosos de plantão, sugiro ler os artigos na Wikipedia em inglês referentes ao seriado e à peça para identificar as alterações nos fatos.
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Cara, admiro a sua inteligência e cultura: não é qualquer um que se dispõe a ler um texto de Shakespeare em inglês! Já pensou em escrever em revistas de cultura?
Só um toque: Em vez de "vindo a se suicidar" use "vindo a suicidar".
Abração!